Toda vez que o Flamengo é
eliminado de uma competição seja qualquer uma e em qualquer circunstância
sempre surge a frase: CRISE NA GÁVEA! E cheguei a ouvir essa menção após o jogo contra o San Lorenzo. E
perguntei: Que crise?
No ponto de vista não existe
crise nenhuma. O que existe, que após uma saída repentina de uma competição
continental onde se avaliava que o time poderia ir muito além, é de que o
momento é de reavaliação de planejamento, plantel e até mesmo de mercado para
possíveis reforços. Agora querer impetrar uma crise no clube é uma forma de
reacender uma política opositora que se via apagada diante de bons resultados
no fim do último semestre de 2016 e bom início de 2017.
Assim que foi concretizado o
resultado pairou uma tempestade de críticas. De que o trabalho está todo
errado, de que a insistência com determinados atletas está sendo de forma
equivocada, de que o time é ruim, jogadores frouxos, treinador medroso, de que
Zé Ricardo é incompetente, de que não adianta dinheiro se não tem time
competitivo. Tudo isso eu ouvi logo após a derrota para o San Lorenzo. Busquei
refletir bem sobre determinado assunto. Concordo com diversas críticas e
descordo de muitas observações bradadas após uma perda dolorosa e vexatória da
equipe rubro-negra. E então vamos a elas.
Assim que a partida contra o San
Lorenzo encerrou a inquisição digital (Termo Utilizado muito por Bruno Azevedo,
comentarista da Transamérica) galgava em teclados plenos, seja no futebol, seja
na política atual brasileira. E em relação ao futebol rubro-negro muitas coisas
ditas, mesmo que na raiva eram pertinentes.
O time do Flamengo, culturalmente
é formado por sempre atacar o adversário independentemente das circunstâncias
do jogo. Isso é uma regra quando torcedores avaliam a equipe. Certo ou errado?
Não sei. Creio que essa postura deveria ser de toda e qualquer equipe que pensa
em vencer os jogos. E naquela noite, em específico, o 11 principal rubro-negro,
não vinha escalado com o time tido “recuado”.
No meio Márcio Araújo, Willian Arão, Gabriel; Berrío, Guerrero e
Éverton, no ataque.
Um time que teoricamente joga para frente, gosta de ficar
com a bola e parte para o ataque. Do jeito que a galera gosta. E o que se viu
no jogo? Foi o time imprensado lá trás e com poucas alternativas de gol. E não
é que o Flamengo com Gabriel, Éverton, Berrio, Guerrero achou um gol. E de
certa forma, bonito, com Rodnei pegando de primeira de fora da área. O cenário se transformara perfeito para o time
até então líder do grupo 04. A partir daí o Flamengo controlou o jogo e foi
para o intervalo.
Na volta para o segundo tempo
tudo permanecia “de boa”. O San Lorenzo pouco atacava e quando fazia errava
tudo. O Flamengo passou a produzir menos
também. Eis que o Zé Ricardo vendo o relógio correr a favor resolveu “fechar a
casinha” . ERRO CRUCIAL!
O Berrío jogava bem? Não, aliás
como maltrata a bola. Porém, era ele a válvula de escape e a grande preocupação
da defesa argentina. Cada arrancada atrapalhada dele era um “Deus nos acuda”, pois
se viam obrigados a dobrar a marcação a todo momento que ele pegava e se tropicava
com a bola. E a preocupação não era nem com o futebol dele. E sim com a fama
que ele conquistou nas Américas desde a Libertadores do ano passado. Para quem
não sabe na parte sulamericana, que não se inclui o Brasil, eles assistem os
torneios Clausura e Apertura, um dos outros. Portanto sabem bem do que
determinado atleta é capaz. Pena, que no Flamengo, Berrío nunca mostrou e
talvez nem venha mostrar a metada do que já no futebol da Colômbia. Enfim,
voltando para o meu raciocínio...
Quando sai Berrío e entra Rômulo,
a proposta de Zé Ricardo foi de fechar o meio-campo e auxiliar a marcação pelo
lado esquerdo de defesa. Primeira leitura errada de Zé Ricardo. O Flamengo só
teve a bola no pé da autoria do gol até o fim do primeiro tempo. Depois a bola
foi toda do San Lorenzo. E a única escapatória contra o time do Papa era ou
chutão para Berrío correr na ponta, ou dar no Guerrero fazer o pivô e alguém
encostar. E a segunda opção foi o que passou a valer. Sendo que o Guerrero não
ganhava uma bola. Quando levava vantagem era marcada falta de ataque. E pior,
Rômulo em nada contribuía com a marcação pelo setor esquerdo. Toda hora era tabela
em cima do Trauco (que não marca nem encontro). E pelo fato de não ficar com a
bola, o que o Zé pensou. Preciso ter a posse de bola de volta. Pois Matheus
Sávio na vaga de Gabriel, que defendi aqui no blog sobre o porquê de sua
utilização nos jogos, mas que pouca gente parou para perceber que as opções do
elenco foram encolhendo (Contusões, queda de rendimento de atletas da posição).
Aí, o que era posse de bola do
San Lorenzo virou pressão. Porquê? Olharam lá para trás o colombiano corredor
já tinha saído e o campo ocupado pelo Gabriel (Latifundiário) estava livre,
livres de preocupação defensiva danaram a jogar bola na área e a jogar da
intermediária ofensiva até a linha do Muralha. E esse poder aumentou ainda mais
quando Diego Aguirre (técnico do Almagro) enfiou Barríos (Um baixinho que
parecia uma pulga) em cima do Rodney(o único que poderia sair com velocidade no
time do Flamengo). Virou um Deus nos acuda, haja coração, se segura que eu
quero ver. E o treinador do Flamengo, que mais uma vez apresentou uma péssima
leitura de jogo, pagou para ver e viu. O resultado final do jogo todos nós
vimos. Flamengo eliminado mais ima vez na primeira fase da Libertadores. Com um
elenco que poderia ter sim voos altos e sequer saiu do chão.
E o erro foi só do Zé Ricardo?
Creio que não. Pode ter havido um erro de cálculo no planejamento, haja visto a
dificuldade e o equilíbrio técnico dos times do grupo 04. A tal
supervalorização da imprensa pode ter contribuído, embora eu acredite pouco
nisso. O que eu acredito é que para o Flamengo faltou o algo a mais dentro de
campo. Dos jogadores.
Porém é um erro do Zé Ricardo
insistir com alguns jogadores sim. Com a recuperação de Diego,
Conca, Éderson
vejo como previsível o esquecimento de Gabriel (será bom até para imagem dele –
já tem 27 anos e dá a impressão de que não amadureceu). Abriu mão de viajar com
caras mais cascudos, no caso falo do Mancuello. Não vem bem, mas além de falar
a mesma língua dos caras, tem mais cancha e “peso” para suportar um jogo como
esse (embora suma em jogos decisivos). Porque em vez de Matheus Sávio não
entrou com Éderson. Mais experiente, encorpado e que viveu o melhor momento no
futebol fazendo o que faz Berrío(com qualidade na Europa). Zé Ricardo botou o
moleque na fogueira e ele se queimou. Esses são os pontos com os quais
concordei com a galera.
Outro erro foi cometido por
Eduardo Bandeira de Melo. A eliminação na Libertadores caiu como uma bomba na
Gávea. E não é para menos. Todo planejamento do ano estava voltado a competição
internacional. O clube deixou de arrecadar cerca de US$ 20 milhões. E o maior prejuízo
é o emocional, Sr. Bandeira de Melo?
E os pontos de discordância?
Não, o time do Flamengo não é
fraco. Mas falta o algo a mais. O time rubro-negro é extremamente regular todos
os jogos vai atuar com as mesmas características: posse de bola, jogadas pelas
pontas, movimentação. Isso é ótimo para um torneio longo e de regularidade como
Brasileirão. Para Copas além de todos esses ingredientes pertinentes a uma
equipe de futebol tem que haver 100% de comprometimento tático, técnico e
físico. Agora insinuar que o time é fraco eu não concordo. Vejo como um dos
times mais competitivos que temos no futebol brasileiro ao lado de Palmeiras,
Atlético-MG, Santos, Cruzeiro. E numa noite, num torneio que requer total atenção
nos 96 minutos de jogo (2 de acréscimo no primeiro tempo e 4 a 5 no segundo). Muitas
das vezes a regularidade têm que dar lugar para a força.
Outra coisa que não concordo é
quando afirmam que Zé Ricardo é incompetente. Posso voltar a maio de 2016? Mais
precisamente no dia 18/05/2016? Fez um ano e o Flamengo era eliminado, na
segunda fase da Copa do Brasil, pelo Fortaleza (Série C na ocasião). Vivia ali
uma transição de Muricy Ramalho (Renomado treinador que não fez o time rodar) e
ele deixava o comando rubro-negro, por motivo de saúde. Jayme de Almeida fez o
mandato tampão e Zé Ricardo assumiu. E veio clássico com Corínthians e 4 x 0
para os paulistas. Maré ruim, né? Pois, é. Ainda antes do Diego entrar no time,
Zé Ricardo, sob desconfiança (que até hoje perdura) arrumou a equipe, deu
padrão de jogo, reconheceu características dos atletas, recebeu um reforço e
tanto como Diego. E fez uma campanha de fazer o torcedor rubro-negro sonhar com
título. E foi palpável depois de 2009, o mais próximo que chegou. No fim faltou
perna ao grupo levado ao limite com viagens, jogos em cima de jogos, um esquema
que requer muita vitalidade, intensidade e faltou Maracanã, onde sempre se
sente à vontade.
Então para mim depois de assumir o rabo de foguete que é ser
técnico num clube de massa e a cobrança como Flamengo, depois do título na
base, dar padrão a um time e recoloca-lo na Libertadores é para se aplaudir. E
um retrospecto que vai a favor dele é o baixo número de derrotas no comando
técnico. De lá para cá pouco se vê o Flamengo perder jogos. Como jovem
treinador oscila. Erra leitura de jogo, substitui errado, toma decisões precipitadas
e tudo isso faz parte de um processo de amadurecimento. Se craque o Flamengo
faz em casa, acho que Zé tem um baita futuro pela frente.
Outro argumento da torcida que me
chamou a atenção foi o “De que adianta ter dinheiro, ter as contas em dia e não
conquistar títulos”. Esse tipo de argumento vem da época que isso era usado
como justificava por dirigentes incompetentes, que não cumpriam com seus
deveres (de pagar jogador) e os times se tornavam campeões. Ter dinheiro em
caixa deveria ser obrigação de todos os dirigentes. E só se monta time
competitivo se você tiver dinheiro em caixa. É como uma engrenagem. Se o
dirigente monta times competitivos e não paga ninguém uma hora a bomba estoura.
E no Flamengo há décadas essa bomba se torna devastadora. E o trabalho que o
Bandeira vem fazendo é de reconstrução e a dois mandatos. Deixe o clube seguir
com o planejamento, realinhar o percurso, reavaliar o elenco e seguir em
frente.
Com essa reavaliação do trabalho,
como um todo, a torcida ávida por vitórias quer ver respeito e comprometimento
as tradições do clube, onde a raça e a vontade estejam a frente da técnica, da
certeza, de qualquer coisa. Zé a regularidade que você deu ao time é de tirar o
chapéu agora é hora de juntar os cacos e mexer com os brios do grupo.